Um ano depois, mortes na Operação Contenção seguem sem esclarecimento

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Um ano após a Operação Contenção nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, as circunstâncias das 121 mortes registradas na ação ainda não foram totalmente esclarecidas. A apuração, conduzida pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro com a participação de outras instituições, reúne depoimentos, laudos periciais e milhares de horas de gravações para reconstruir o que ocorreu em outubro de 2025.

A mobilização começou na madrugada de 28 de outubro de 2025 e reuniu mais de 2,5 mil policiais civis e militares. Segundo as autoridades, o objetivo era prender lideranças criminosas que atuavam a partir dos dois complexos, inclusive com ramificações em outros estados, dentro de uma estratégia estadual de combate à expansão territorial do Comando Vermelho e à sua estrutura financeira, logística e operacional. Ao longo do dia, moradores conviveram com horas de confrontos, enquanto as equipes avançavam por ruas e vielas e incêndios de ônibus eram atribuídos a criminosos. Imagens de corpos alinhados em uma rua da Vila Cruzeiro, na Penha, ganharam repercussão nacional e internacional e ampliaram a pressão por respostas.

O balanço inicial apontou 121 mortos, entre eles quatro agentes de segurança. Em novembro, o total de policiais mortos chegou a cinco, após a morte de um agente que estava internado. As forças de segurança sustentam que as 117 pessoas que não eram policiais morreram em confrontos armados. Moradores e familiares, por outro lado, relataram possíveis episódios de tortura e execução, e esses relatos passaram a integrar o contexto da investigação.

Para apurar os óbitos dos dias 28 e 29 de outubro de 2025, o Ministério Público abriu um Procedimento Investigatório Criminal, conduzido pelo promotor Fabio Correa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública. Segundo o órgão, já foram ouvidos 255 policiais civis e militares que participaram da ação, 61 pessoas presas durante a operação e 45 parentes de vítimas, após contato com familiares de todas as vítimas. O trabalho inclui o acompanhamento das necropsias feitas pelo Instituto Médico-Legal e a análise de laudos periciais, com o objetivo de confrontar relatos com evidências técnicas, verificar caso a caso as circunstâncias dos óbitos, a dinâmica dos disparos e a eventual responsabilidade de agentes públicos ou de outras pessoas.

Um dos principais desafios é o volume de imagens das câmeras corporais: cerca de 4 mil horas de gravações estão sob análise. As gravações, porém, não registraram integralmente a atuação de todos os agentes. Segundo as autoridades de segurança, parte das câmeras parou de funcionar quando as baterias se esgotaram ao longo da operação. Um levantamento citado pela Agência Brasil também identificou indícios de desligamento proposital de algumas câmeras e de obstrução de lentes. Na análise de 51 equipamentos do Batalhão de Operações Especiais, pelo menos 17% teriam sido desligados intencionalmente e 7,8% apresentavam sinais de lente obstruída. A apuração ainda precisa identificar em que circunstâncias ocorreram as interrupções e se elas prejudicaram o esclarecimento de episódios específicos.

Entre os episódios examinados, dois chamaram a atenção dos peritos por características consideradas atípicas: uma pessoa morta por disparos a curta distância e uma vítima encontrada decapitada. Segundo o promotor, as duas situações permaneciam sob investigação e ainda não permitiam conclusões definitivas. A falta de perícia diretamente nos locais, conforme as informações divulgadas, dificulta a reconstrução de determinadas circunstâncias.

Além da investigação sobre os óbitos, apurações ligadas à operação identificaram suspeitas de outros desvios de conduta. Até junho de 2026, o Ministério Público havia denunciado 27 policiais por ocorrências como desvio de fuzis apreendidos, furtos de peças de veículos e outros bens, invasões de domicílio e constrangimento de moradores. Essas denúncias tratam de condutas específicas e não representam, por si só, uma conclusão sobre a responsabilidade pelas 121 mortes.

Em março de 2026, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão ligado à Organização dos Estados Americanos, divulgou um relatório com questionamentos sobre a condução da operação e das investigações posteriores. O documento abordou a estratégia policial, o elevado número de mortos e relatos sobre dificuldades no armazenamento dos corpos e na liberação para as famílias. Também registrou restrições iniciais de acesso da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro a laudos de autópsia e documentos periciais — acesso obtido posteriormente, enquanto a instituição trabalhava para apresentar os materiais às famílias representadas. O relatório ainda apontou relatos de lesões entre pessoas detidas: entre os presos, 17 apresentavam lesões e outros 36 tiveram laudos inconclusivos para maus-tratos ou tortura.

Até 27 de outubro de 2026, não havia uma conclusão geral sobre as circunstâncias das mortes. A Polícia Civil e a Polícia Federal também conduzem investigações relacionadas ao caso. A análise das câmeras corporais, os depoimentos de policiais e familiares e os laudos periciais seguem como elementos centrais para esclarecer o que aconteceu e determinar se houve responsabilidades individuais.

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