A ofensiva iniciada no sábado (28), envolvendo o Irã e a aliança entre Estados Unidos e Israel, expôs diferenças nítidas entre os principais pré-candidatos à Presidência de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O governo brasileiro condenou o ataque ao território iraniano e defendeu solução diplomática, enquanto o senador classificou a posição oficial como inaceitável.
A reação do Planalto soma-se a episódios anteriores que aproximaram gestões petistas do regime iraniano. No campo oposto, Flávio e aliados mantêm alinhamento com Washington e Tel Aviv, sob o argumento de defesa do Ocidente e combate ao terrorismo. Analistas avaliam que as posturas refletem plataformas ancoradas em convicções ideológicas distintas e tendem a influenciar o debate eleitoral. Para Ismael Almeida, o governo abandonou a neutralidade e demonstra tolerância a regimes autoritários, escudado em discurso pacifista, enquanto o campo conservador privilegia alianças com democracias e segurança internacional, arcando com eventuais custos diplomáticos. Márcio Coimbra sustenta que Lula se apoia na tradição de não intervenção, autodeterminação e soberania, apostando no diálogo multilateral, ao passo que Flávio prioriza a solidariedade ao eixo ocidental e vê a neutralidade como insuficiente diante de uma teocracia contrária a bases liberais e judaico-cristãs. Na avaliação dele, trata-se de um embate entre uma diplomacia de princípios jurídicos e outra guiada por identidade ideológica.
No fim de semana, Estados Unidos e Israel realizaram ação coordenada contra o Irã, com a morte do líder supremo, Ali Khamenei, e de chefes militares. Teerã retaliou com mísseis contra bases americanas e alvos árabes e israelenses. O presidente Donald Trump justificou a operação como tentativa de encerrar o programa nuclear iraniano e o regime dos aiatolás. O governo brasileiro rejeitou a ação sem aval da ONU; setores da direita avaliaram como positivo o abalo à teocracia.
As agendas externas das pré-campanhas seguiram caminhos opostos desde o fim de 2025. Oficializado para a disputa, Flávio Bolsonaro percorreu Estados Unidos, Oriente Médio e Europa em busca de interlocução com a direita global e de contraste com a diplomacia do governo. Lula reduziu o ritmo de viagens e priorizou iniciativas comerciais e políticas internas. Especialistas veem o senador em movimento ofensivo no exterior, combinando encontros institucionais e gestos simbólicos, enquanto o presidente enfrentaria perda de respaldo internacional, associada a posições polêmicas e ao avanço de lideranças conservadoras no mundo. O contraste, apontam, deve aparecer na campanha: de um lado, reafirmação de valores ocidentais; de outro, a defesa da pauta dos países emergentes.
Para Elton Gomes, da UFPI, Flávio, na condição de herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro, tenta reatar pontes construídas no governo anterior e levar críticas à política externa atual para o centro da disputa, convertendo o tema internacional em ativo de campanha. Segundo ele, a estratégia já repercute na percepção do eleitorado, consolidando o senador como alternativa viável da direita também aos olhos de interlocutores estrangeiros. Gomes projeta manutenção da polarização vista em 2022 e afirma que o resultado dependerá de uma combinação entre segurança pública, desempenho econômico e níveis de rejeição.
Coimbra avalia que a internacionalização da eleição reflete a fragmentação global e a escolha do governo por uma neutralidade que teria afastado o país de democracias liberais. Na sua leitura, o plano de projetar Lula como estadista global perdeu fôlego, em meio a discurso considerado anacrônico, aproximação com o eixo Pequim–Moscou–Teerã e ambiguidade frente a autocracias. Com a consolidação da liderança de Trump e maior assertividade de Washington no hemisfério, a retórica do “Sul Global” teria se tornado um passivo diplomático e econômico, levando o Planalto a concentrar esforços na agenda doméstica. Uma aproximação da direita brasileira com a Casa Branca é vista como estratégia previsível, porém sujeita a riscos: embora dialogue com parte do eleitorado em temas de segurança e prosperidade, enfrenta o protecionismo do “America First” e não garante redução de barreiras ao agronegócio ou à indústria. O desafio, diz, é evitar a imagem de submissão e apresentar compromisso com segurança jurídica e abertura de mercados. Na sua visão, vencerá quem traduzir a geopolítica em ganhos concretos ao cidadão, integrando o país ao eixo ocidental com pragmatismo e defesa do interesse nacional.
O peso econômico do Brasil também amplia a atenção internacional ao pleito, observa Daniel Silva, da USP. Entre as maiores economias do mundo, o país oferece grande mercado consumidor e capacidade de atrair investimentos, o que torna a escolha presidencial relevante para atores externos, sobretudo diante de uma das maiores democracias do continente.
No front das agendas, Flávio intensificou viagens. Em janeiro, foi a Israel para a Conferência Anual de Combate ao Antissemitismo, reuniu-se com Benjamin Netanyahu e reforçou alinhamento com o governo local. Lula, por sua vez, foi declarado persona non grata por Israel após comparar ações militares em Gaza ao Holocausto, o que resultou em reprimenda ao embaixador brasileiro e em desgaste nas relações bilaterais. Na sequência, o senador passou por Bahrein e Emirados Árabes Unidos; em fevereiro, esteve na França, onde cumpriu compromissos com lideranças da direita e veículos de imprensa. Nos Estados Unidos, realizou ao menos três agendas em menos de um mês, com passagem por Nashville e articulações no entorno de Trump, sem encontro formal com o secretário de Estado, Marco Rubio. O roteiro inclui Polônia, Hungria, Portugal e Bélgica. Na América Latina, mantém proximidade com o presidente argentino, Javier Milei, e com José Antonio Kast, no Chile, além de conexões com Nayib Bukele, em El Salvador, com interesse no modelo prisional do país. O objetivo é projetar imagem de candidato com trânsito internacional e identidade ideológica definida, mobilizando a base e acumulando ativos simbólicos.
Lula, por outro lado, adotou agenda externa mais seletiva, voltada a comércio e investimentos, com viagens à Índia e à Coreia do Sul e empenho pela conclusão do acordo Mercosul–União Europeia. Embora mantenha críticas às ações dos Estados Unidos na Venezuela e defenda a América Latina como “zona de paz”, busca preservar canais com Washington e aposta em encontro em março com Trump na Casa Branca para avançar em pautas bilaterais, com foco em minerais raros. O risco de novas tarifas ao comércio brasileiro está no radar. O governo também acena para parcerias contra o crime organizado e o narcotráfico, tema sensível no debate interno.
O cenário permanece em evolução. A escalada no Oriente Médio e as movimentações internacionais dos pré-candidatos tendem a alimentar a campanha nos próximos meses, enquanto o Planalto concentra-se em resultados domésticos e a oposição amplia articulações externas à espera de desdobramentos na corrida eleitoral.
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