As chuvas intensas registradas nos primeiros dias de fevereiro no Rio de Janeiro, que fizeram o acumulado do mês superar a média histórica em menos de dez dias, elevaram parcialmente o nível dos reservatórios do Paraíba do Sul, principal fonte de abastecimento do estado. Apesar do avanço, o volume ainda está abaixo do patamar considerado seguro para o período seco.
O reservatório equivalente do sistema passou de 33% em janeiro para cerca de 47,30% no início de fevereiro. A referência para atravessar o inverno com maior segurança é de 56,1%. Entre 1º e 8 de fevereiro, a capital somou 158,5 milímetros de chuva, acima da média histórica mensal de 118,3 mm. Em áreas como o Maciço da Tijuca, os acumulados já superaram com folga o esperado para todo o mês, mas esse excesso não se refletiu na mesma proporção nos mananciais.
Para João Gomes, diretor do Comitê do Baixo Paraíba do Sul e ex-presidente do Ceivap, a recuperação é positiva, porém ainda insuficiente. Ele avalia que o nível de 56,1% é o mínimo para garantir uma estiagem mais tranquila e alerta que, se esse patamar não for alcançado até abril, o inverno pode ser mais crítico. Em janeiro, os principais reservatórios do sistema operavam com 33,32% do volume útil, um dos menores índices da série histórica iniciada em 1998, cenário então tratado como de atenção.
Segundo Gomes, o principal entrave é a distribuição das precipitações. A chuva tem se concentrado em áreas urbanas e litorâneas, enquanto a recuperação efetiva depende de volumes nas bacias de drenagem do Paraíba do Sul, em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Mesmo com o alerta, ele não vê risco imediato de desabastecimento na Região Metropolitana: o sistema Guandu, que atende cerca de nove milhões de pessoas, é alimentado por transposição contínua a partir do reservatório de Santa Cecília, com vazão mantida independentemente do nível. O risco maior, afirma, é sistêmico, mirando o período de inverno.
Na mesma linha, Ary Girota, presidente do Sindágua-RJ, ressalta que a forte chuva na cidade não resolve sozinha a segurança hídrica. A recomposição ocorre nas cabeceiras, e isso não tem acontecido de forma consistente. Ele lembra que, na crise de 2014 e 2015, o sistema operou próximo ao volume morto sem desabastecimento generalizado no Rio e que a situação atual é melhor, embora exija cautela.
O comportamento de fevereiro também contrariou a previsão inicial de chuva abaixo da média. A atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul mudou o cenário e sustentou precipitação persistente por vários dias. O meteorologista Guilherme Borges explica que, quando esse sistema se organiza sobre o Sudeste, os acumulados aumentam rapidamente. Entre 1º e 6 de fevereiro, o Rio registrou 103,2 mm, o equivalente a 87% da média mensal. Em menos de dez dias, o total chegou a 158,5 mm em diversas estações. O quadro contrasta com fevereiro de 2025, apontado como o mais seco desde 1997, quando massas de ar muito quentes inibiram a formação dos canais de umidade. Neste ano, a atmosfera se mostra mais favorável, com padrão típico de verão.
Especialistas afirmam que o comportamento das chuvas em março e abril será determinante para saber se o estado atravessará o inverno sem novos alertas no abastecimento.
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