Um relato em primeira pessoa descreve a descoberta de que o receio central do autor não é a morte, mas o esquecimento. A conclusão surgiu após refletir sobre a ideia de que alguém permanece vivo enquanto houver quem o recorde.
Segundo o texto, o autor se reconhece ateu desde muito jovem, apesar da formação católica com batismo, primeira comunhão, colégio religioso e crisma. Ele afirma nunca ter acreditado em vida eterna e relata que, na infância, observava as missas com atenção ao ritual e aos fiéis, sem identificar algo que considerasse sobrenatural, ainda que imitasse a postura de respeito dos presentes.
O autor sustenta que a busca por explicações para fenômenos ainda não compreendidos pela ciência leva parte das pessoas a recorrer a dogmas, lembrando que povos antigos cultuavam astros. Declara considerar conceitos como céu, inferno, purgatório, almas, perispíritos e reencarnação como criações de ficção e cita a formulação de Ferreira Gullar de que religiões oferecem respostas ao que não tem resposta. Por essa visão, diz não temer a morte, entendida como término definitivo após velório, enterro ou cremação. Afirma também acreditar que a ausência de sensação pós-morte é equivalente à de antes do nascimento e que suas ações se orientam por uma sensibilidade terrena, sem preocupação com eventual julgamento final.
Nos últimos tempos, porém, o autor passou a pensar na própria morte e sentiu uma angústia que contrariava suas convicções. O incômodo ganhou sentido ao retomar uma reflexão registrada por Martha Medeiros, que cita Amós Oz: a vida se estende até que morra a última pessoa que ainda guarda a lembrança de quem partiu. A partir daí, ele concluiu que o desconforto decorre do medo de ser esquecido — percepção que reconhece como possível traço de egoísmo ou vaidade e que diz aceitar.
Como indícios desse impulso de permanência, o autor menciona o antigo desejo de ter netos, o acordo com a filha para publicar livros que vinha adiando, a organização de anotações e registros e a criação de obras infantis dedicadas aos netos Luana, Mariana, Antonio e Paula.
No encerramento, o texto afirma que a compreensão sobre a origem da angústia trouxe alívio: o autor reitera que não teme a morte, mas admite temer o esquecimento, e vê nas obras e na memória afetiva da família uma forma de continuidade.
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