Em 48 horas, as negociações entre Estados Unidos e Irã sobre os limites do programa nuclear passaram de sinais de avanço a uma crise, culminando neste sábado (28) com ataques dos Estados Unidos e de Israel a cidades iranianas. As ações militares deixaram ao menos 201 mortos e 747 feridos.
Os bombardeios ocorreram enquanto emissários do presidente americano, Donald Trump, e do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, realizavam novas rodadas de diálogo. O ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr AlBusaidi, atua como mediador e relatou em sua conta na rede X que o clima negociador mudou bruscamente nesse intervalo, de expectativa de acordo para consternação. Há anos, Teerã afirma que seu programa nuclear tem fins pacíficos, enquanto Washington e aliados, em especial Israel, veem objetivos militares.
O histórico inclui o pacto firmado em 2015, quando os iranianos aceitaram limitar o enriquecimento de urânio em troca de alívio de sanções. O parâmetro de enriquecimento é determinante para o caráter civil ou militar de um programa nuclear. Em 2018, no segundo ano de mandato, Donald Trump retirou os EUA do acordo. Em 2025, já no início de seu segundo mandato, voltou a indicar a necessidade de um novo entendimento. Diante de pressão e ameaça de guerra, o Irã retornou à mesa de negociação com mediação de Omã, país vizinho ao sul do Irã, separado pelo Golfo de Omã e que abriga a Península de Musandam, enclave que compõe o Estreito de Ormuz.
Após os ataques, o Estreito de Ormuz voltou ao foco do mercado de petróleo. Cerca de 20% do volume mundial transita pelo local. Há receio de bloqueio, cenário que elevaria os preços internacionais.
A cronologia dos últimos dias mostra a virada. Em 22 de fevereiro, o mediador informou estar satisfeito em confirmar uma rodada de conversas a ser realizada em Genebra no dia 26, com “impulso positivo” para concluir um acordo. Em 26 de fevereiro, registrou “progresso significativo” e disse que as delegações voltariam aos respectivos países para consultas, com tratativas técnicas previstas para a semana seguinte em Viena. No dia 27, publicou encontro com o vice-presidente americano, J.D. Vance, e afirmou esperar avanços decisivos nos próximos dias, ressaltando que a paz estava ao alcance. Também divulgou vídeo de entrevista na qual defendeu um entendimento com premissas como ausência de armas nucleares, estoque zero e verificação ampla, de forma pacífica e permanente. Já em 28 de fevereiro, após os ataques, disse estar consternado, avaliou que as negociações ativas e sérias foram novamente prejudicadas, pediu que os Estados Unidos não se deixem arrastar ainda mais e manifestou preocupação com os civis.
Entre as vítimas, ao menos 85 alunas morreram no bombardeio a uma escola para meninas no sul do Irã.
No momento, o processo negociador foi descrito pelo mediador como comprometido, e os próximos passos são incertos. As tratativas técnicas anunciadas para Viena estavam previstas para a semana seguinte, mas o novo cenário coloca dúvidas sobre sua realização.
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