A caverna algorítmica: redes sociais exploram vulnerabilidades e ampliam a polarização

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Um ensaio compara a alegoria da caverna de Platão ao funcionamento das plataformas digitais e sustenta que sistemas algorítmicos, desenhados para explorar vulnerabilidades psicológicas, moldam o que cada usuário vê, ampliam o engajamento e favorecem a polarização.

A análise parte da imagem platônica — pessoas que tomam sombras por realidade — para argumentar que, no ambiente online, a “caverna” é construída sob medida. Segundo o texto, os algoritmos mapeiam desejos, confirmam crenças e entregam versões do mundo que reforçam medos ou expectativas, mantendo o usuário atento, indignado ou anestesiado. Em 2017, Sean Parker, primeiro presidente do Facebook e criador do Napster, afirmou publicamente que a plataforma foi concebida para explorar fragilidades psicológicas, com um feed pensado para liberar dopamina de forma a reter a atenção do usuário. O ensaio cita ainda a comunicação direta de líderes políticos nas próprias redes, sem intermediação tradicional. Como exemplo, menciona a publicação, na madrugada, de um vídeo no Truth Social, logo após o início de ataques ao Irã, apresentada como mensagem pessoal enviada diretamente à tela de quem assiste.

O texto retoma antecedentes históricos da atuação sobre o desejo coletivo, lembrando que Edward Bernays, no início do século XX, associou o cigarro à emancipação feminina e influenciou comportamentos sem mediação legal. A diferença, argumenta, está na velocidade e precisão atuais: a operação ocorre em tempo real, individualmente e em larga escala, convertida em modelo de negócios. O resultado descrito é uma fragmentação que se apresenta como pluralidade, na qual cada pessoa habita um recorte de mundo. Para o autor, a polarização não é um efeito colateral, mas um produto desse arranjo.

Na parte final, o ensaio traça um paralelo entre práticas de banimento na Antiguidade e dinâmicas de punição social nas redes, que ocorreriam “sem contraditório” e em tempo real. Fecha com uma pergunta em aberto: se quem está imerso nesses ambientes não percebe os limites, como reconhece o cativeiro? A resposta sugerida é que isso só acontece quando surge a desconfiança de que as “sombras” foram fabricadas — um momento raro, mas possível.


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