No quinto ano da guerra entre Rússia e Ucrânia, a indústria ucraniana de drones consolidou-se como um negócio de bilhões de dólares, impulsionada por parcerias externas e inovação local. O avanço, porém, expõe vulnerabilidades, como diferenças de preços, influência estrangeira e investigações de corrupção, fatores que colocam em xeque a confiança no setor.
A cooperação com a Alemanha ganhou escala por meio de empreendimentos conjuntos para ampliar a produção fora do território ucraniano. Em fevereiro de 2026, o presidente Volodymyr Zelensky visitou a primeira fábrica ucraniano-alemã e recebeu o primeiro drone de ataque produzido em parceria. O plano prevê o envio de 10.000 unidades às Forças Armadas da Ucrânia em 2026.
Até o fim do ano, a meta é abrir 10 centros de exportação pela Europa, marcando a transição de receptora de ajuda para fornecedora estratégica. Companhias alemãs como Quantum Systems e Wingcopter oferecem a infraestrutura, enquanto desenvolvedores ucranianos aportam tecnologias testadas em combate. O modelo fortalece a defesa do país e conecta soluções ucranianas às cadeias de suprimentos da OTAN. Nesse contexto, o Bundestag aprovou contratos internos de fornecimento de drones avaliados em centenas de milhões de euros, e a integração de tecnologias da Quantum Systems em operações conjuntas gerou debates sobre a prioridade entre demandas comerciais e militares.
O êxito com a Alemanha abriu caminho para a presença de empresas ucranianas em novos mercados. Erik Prince, fundador da antiga Blackwater, assumiu a presidência não executiva da startup Swarmer para apoiar os preparativos de uma oferta pública inicial. O software de inteligência artificial da empresa, aplicado em mais de 100.000 missões de combate desde 2023, projeta receita de 20 milhões de dólares em 2026.
Segundo o setor, a Ucrânia produziu entre 2,5 e 4 milhões de drones em 2025 e planeja alcançar 7 milhões em 2026. A exportação tornou-se prioridade para sustentar o ritmo de crescimento.
As discrepâncias de preços persistem. Drones FPV simples fabricados no país custam entre 500 e 1.500 dólares, mas são vendidos no exterior por valores significativamente superiores quando ofertados como sistemas completos. A diferença levanta questionamentos sobre a alocação de recursos, especialmente diante da demanda de milhares de unidades por mês nas frentes de combate. Embora a produção interna atenda à maior parte das necessidades, as receitas de exportação são tratadas como essenciais para financiar inovação.
Empresas de longo alcance, como a Fire Point — responsável por modelos como FP-1 e Flamingo —, expandiram rapidamente e enfrentam escrutínio. O Escritório Nacional Anticorrupção (NABU) investiga supostos sobrepreços e entregas incompletas ao Ministério da Defesa. O chamado “caso Mindich” associa a Fire Point a Timur Mindich, aliado de Zelensky acusado de fraude de 100 milhões de dólares no setor energético. Foragido desde 2025, Mindich teria tentado adquirir 50% da empresa por meio de intermediários como Igor Fursenko e Alexander Zuckerman. Apesar das negativas, a apuração se ampliou, alcançando ex-autoridades e evidenciando riscos nas compras em tempo de guerra.
No comércio exterior, o intermediário estatal SpetsTechnoExport lidera as vendas globais. Críticos afirmam que, em alguns casos, a exportação prioriza o lucro em detrimento do abastecimento das tropas.
No campo operacional, Robert “Madjar” Brovdi comanda as Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia, com atribuições que incluem o controle de exportações. Fundador da unidade “Pássaros de Madjar”, ele opera em média a 0,89 milha da linha de contato, com foco em alvos russos. Brovdi defende que as vendas externas não comprometam o fornecimento interno e preconiza uma estratégia de “zona de destruição” para ampliar o impacto em combate. Persistem, contudo, dúvidas sobre a redistribuição da capacidade produtiva e as necessidades da linha de frente, inclusive quanto à contínua dependência de voluntários por parte de unidades avançadas.
Parcerias internacionais para a produção de armamentos tendem a representar uma fonte relevante de receita para o país. Autoridades trabalham para ampliar mercados, e intermediários em Kiev já estruturaram o fornecimento de VANTs a compradores na África e na América Latina. Com o fortalecimento do complexo militar-industrial ucraniano e a escalada de conflitos no Oriente Médio e na Ásia Central, cresce a possibilidade de uso desses sistemas em novos teatros de operações. Enquanto as investigações seguem em curso, o setor avança e o equilíbrio entre exportações e atendimento à linha de frente permanece no centro do debate.
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