Epstein financiou modelos brasileiras; MPF investiga citação

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Novos documentos divulgados pelo governo dos EUA sobre Jeffrey Epstein apontam relações com modelos brasileiras, incluindo apoio financeiro e possível contratação como assistentes. As mensagens, de 2006 a 2013, incluem convites, envio de dinheiro e pedidos de apresentação de outras mulheres. Um caso envolvendo uma jovem de Natal foi encaminhado ao MPF.

Os milhões de novos documentos sobre o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein divulgados pelo governo americano nas últimas semanas indicam que ele manteve relações pessoais com modelos brasileiras, prestou ajuda financeira e pode tê-las empregado como assistentes em algum momento. Há conversas desde pelo menos 2006 nos arquivos, anteriores à sua primeira prisão.

Nas trocas por e-mail, Epstein é convidado para festas, fala de visitas a São Paulo, informa que enviará dinheiro, pede a apresentação de outras mulheres para viagens ao Brasil, recebe fotos de mulheres (sem menção de idades) e avisa a uma delas poucos dias antes de sua primeira prisão, em 2008. Como o contexto dos e-mails é limitado e não há clareza sobre ações ilegais, todos os nomes serão preservados neste texto.

Parte desses arquivos foi retirada do ar pelo governo americano nos últimos dias, após identificação de vítimas. A BBC News Brasil mostrou, na última semana, que um parceiro de Epstein discutiu com ele a intenção de comprar uma revista de moda no Brasil e que teriam um contato direto no país para conseguir garotas, inclusive com menores de idade. Também revelou, por meio de entrevista com uma vítima, que diversas brasileiras estiveram na mansão de Epstein.

DENÚNCIA AO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

Uma das mensagens envolvendo uma brasileira chegou ao conhecimento do Ministério Público Federal (MPF) em Natal, no Rio Grande do Norte, na última semana. Uma troca interna de ofícios começou após o procurador-chefe Gilberto Barroso de Carvalho Júnior comunicar ter recebido informações “dando conta do aliciamento e envio de mulher residente nos arredores de Natal/RN possivelmente para a prática de atos sexuais com a pessoa de Jeffrey Epstein, nos EUA”.

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Na última semana, jornalistas e sites no Estado noticiaram menções a uma mulher de Natal nas trocas de e-mails. Datadas de 2011, as mensagens obtidas pela BBC News Brasil não confirmam se houve aliciamento nem revelam a idade da pessoa citada, mas mostram o interesse de Epstein em uma brasileira após apresentação feita por uma conhecida e indicam que essa ponte no Brasil tentou apresentá-lo a outras amigas.

Os diálogos detalham a organização para emissão de passaporte, o plano de levá-la aos EUA e pedidos explícitos de Epstein por fotos em trajes de banho e lingerie. O caso foi encaminhado à Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Imigrantes.

‘PATRÃO’

As primeiras mensagens são de 2006. Epstein pergunta a uma modelo se pode encontrar outra mulher (possivelmente brasileira, pelo nome) e pede que ela ligue para ele em Nova York no domingo. Em mensagem anterior, a interlocutora brasileira diz que “tem algo” para ele, sem especificar; ele responde: “Estou esperando por foto.”

Em dezembro, ele avisa que estaria em São Paulo e pergunta: “Princesa, onde você está? Estarei em São Paulo nesta semana. Quem está lá?” Em outra ocasião, afirma estar em Paris e questiona se há “any friends” por lá. A mulher, que em um dos e-mails o chama de “patrão”, pede informações sobre a operação no exterior de uma grande empresa de lingerie e menciona o interesse do namorado em investir na marca. Ela pergunta ainda se uma amiga pode ficar na casa dele em Nova York e se ele pode ajudar com a passagem; ele responde: “Eu a conheço?”

Em ao menos um e-mail de 2008 em que Epstein é copiado, o título é “Save the Date”, com nomes e endereços eletrônicos de diversas modelos brasileiras e empresários do setor da moda. As conversas terminam com Epstein dizendo que “vai para a cadeia por um ano, começando na segunda. Te desejo boa sorte.” A mensagem é de 28 de junho de 2008. No dia 30, ele se declararia culpado por solicitar prostitutas menores de idade e seria condenado.

‘POSSO TE MANDAR DINHEIRO?’

Ao longo de 2012, Epstein troca uma série de mensagens com outra modelo brasileira. Os textos sugerem algum tipo de relacionamento e apoio financeiro. “Meu amor, obrigada por tudo. Você é incrível. Obrigada por se importar comigo. Eu gosto muito de você. Não só pelo sexo, mas pelo seu coração. Espero te ver em breve”, escreveu ela em fevereiro de 2012.

Em julho, ela volta a agradecer: “Sinto muito sua falta, obrigada por tudo, por sempre estar perto de mim. Você é o melhor. Não se esqueça de que você vive no meu coração.” Epstein pergunta se ela “pode ir à ilha depois do dia 1” e oferece um avião para buscá-la. Em fevereiro, afirma que quer mandar dinheiro e que não gosta de que “ela não tenha nada”. “Você tem alguma conta bancária em que eu possa mandar dinheiro?”, pergunta. Ela responde com dados de um banco brasileiro. Em julho, diz que precisa de “um adiantamento” e menciona querer ajudar um namorado que começava a trabalhar com investimentos.

CIRURGIA ESTÉTICA E APRESENTAÇÃO DE MULHER EM NATAL

Outra brasileira aparece com frequência nos arquivos, em relação de proximidade e dependência financeira com Epstein entre 2009 e 2013. As mensagens mostram pedidos de recursos para despesas pessoais e procedimentos estéticos, além da apresentação de outras mulheres ao bilionário, sem menção de idades.

Em 2009, os e-mails detalham solicitação de dinheiro para cirurgia de implante de silicone; a mulher adia o procedimento enquanto aguarda o pagamento e afirma que pretende “se exibir em Palm Beach” após o resultado. Epstein instrui funcionários a realizarem transferências bancárias, inclusive em moeda brasileira. O suporte inclui outros pedidos: uma funcionária relata que a brasileira foi ao escritório solicitar US$ 450 para compra de celular; em outro momento, assistentes coordenam pagamentos para serviços de beleza de luxo para a jovem e sua mãe.

O papel de intermediação aparece em registros de janeiro de 2011, quando ela trata da ida de uma jovem de Natal aos Estados Unidos — caso que está no procedimento do MPF. Em mensagem, descreve que a moça não fala o idioma, nunca viajou e vem de família simples, sugerindo viajar no mesmo voo para facilitar. A idade não é mencionada. Ela envia fotos da jovem e afirma que Epstein iria “adorá-la”. Ele pede mais imagens, especificando “lingerie ou biquíni”. Embora escreva depois que a ajuda poderia ser “mal interpretada”, a brasileira mantém a sugestão de encontro, propondo Paris e reforçando que a jovem era o “tipo” dele.

Natal é citada também quando o agente de modelos Jean-Luc Brunel informa a Epstein ter estado na cidade em 2010. Brunel, parceiro de Epstein, foi encontrado morto na prisão em Paris, em 2022, onde estava detido desde o início de uma investigação formal após ser acusado de assédio sexual e estupro contra jovens de 15 a 18 anos na França. Ele negava as acusações.

Há ainda mensagem de 2013, da mesma brasileira, em que ela pede ajuda a Epstein: diz estar com ordem de despejo, sem recursos para advogado e solicita um lugar para ficar. No mesmo texto, menciona uma nova amiga recém-chegada do Brasil interessada em conhecê-lo.

‘ESTOU INDO A SÃO PAULO. TEM ALGUMAS AMIGAS PRA MIM?’

Em abril de 2006, uma modelo brasileira escreve a Epstein pedindo desculpas por tê-lo desapontado (sem contexto detalhado) e relata medo de que ele “não gostasse mais dela” e a “mandasse para casa”. Ela lembra que “Jean Luck” esteve no Brasil e que Epstein pediu que falasse com ele para conseguir emprego — possivelmente referência ao ex-agente de modelos francês Jean-Luc Brunel, parceiro de Epstein.

Ela afirma que Brunel lhe disse não saber como Epstein ainda gostava dela, que ele “sempre fica com uma garota por pouco tempo e depois a manda para casa”, e que tinha certeza de que ele “se cansaria mais cedo ou mais tarde”. A modelo diz ter conhecido um namorado de quem gostava, mas que ainda sentia falta de Epstein, e nega motivação financeira: “Se fosse, eu teria ido quando você me convidou. Eu realmente gostava de você.” Epstein responde: “não se preocupe.”

Em dezembro do mesmo ano, ele avisa que está indo a São Paulo e pergunta: “Você tem algumas amigas para mim?” Ela responde: “Em São Paulo eu não tenho nenhuma de que você fosse gostar, são mais velhas.” Em 2007, retomam o contato e ela pede dicas de investimento: “Estou ganhando um bom dinheiro… Você poderia?” Ele responde: “Compre um bom apartamento no Brasil. Mande mais fotos.”

‘NÃO CONHEÇO MUITAS GAROTAS. VOCÊ É EXIGENTE’

Em 2010, e-mails relatam conflito entre Epstein e uma modelo endividada (nome suprimido). Ela diz precisar “muito” falar com ele e relata dívida de “US$ 26 mil” relacionada a uma casa em Nova York. Afirma temer “não poder mais ir para a América” e diz que participaria de “um desfile”, descrito como “um grande evento”, com “supermodelos brasileiras”. Pede ajuda: “Por favor, me ajude. Eu só quero trabalhar, fazer uma carreira e ir ao Brasil.”

Epstein responde que ela precisa oferecer algo em troca, não apenas pedir: “Toda vez que fala comigo, você me pede algo.” Em seguida, afirma que tentará ajudar. Ela diz ter dificuldade em apresentar garotas por ele ser “muito exigente” e afirma não conhecer muitas. Epstein rebate que ela “nunca manda nem um agradecimento”, “nem um biscoito”, e conclui: “Não é assim que um amigo se comporta.”

Este texto foi publicado originalmente aqui.


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